A Reforma Tributária está mudando
a forma como as empresas brasileiras lidam com os tributos sobre o consumo. Com
a implantação da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS
(Imposto sobre Bens e Serviços), a atenção dos empresários não deve ficar
restrita apenas ao cálculo dos impostos.
Também será necessário entender
como essas mudanças podem afetar custos, preços, margens, fluxo de caixa e
capital de giro.
Nesse cenário, a DRE –
Demonstração do Resultado do Exercício se torna uma ferramenta ainda mais
importante para a gestão.
Ela ajuda a responder uma
pergunta essencial:
Depois de vender, pagar
custos, despesas e tributos, quanto realmente sobra para a empresa?
O que é a DRE?
A DRE é um demonstrativo contábil
que apresenta o desempenho econômico da empresa em determinado período.
De forma simplificada, ela
mostra:
Receita bruta
(-) Deduções e tributos
= Receita líquida
(-) Custos das mercadorias, produtos ou serviços
= Lucro bruto
(-) Despesas operacionais
= Resultado operacional
(-/+) Outros resultados
= Lucro ou prejuízo do período
Na prática, a DRE permite
entender se a empresa está realmente gerando lucro ou se o faturamento elevado
está sendo consumido por custos e despesas.
Qual é a relação entre a DRE e a
Reforma Tributária?
A Reforma Tributária altera a
estrutura dos tributos sobre o consumo e cria uma nova lógica de apuração
baseada principalmente no IBS e na CBS.
Essas mudanças podem refletir
diretamente em diversos pontos da operação, como:
Por isso, olhar apenas para o
valor do imposto destacado na nota fiscal não será suficiente.
A empresa precisará entender como
a mudança tributária está chegando ao resultado final do negócio.
DRE ajuda a identificar queda de
margem
Imagine uma empresa que faturava R$
200 mil por mês antes das mudanças tributárias.
Após a Reforma Tributária,
continua faturando os mesmos R$ 200 mil.
À primeira vista, o empresário
pode imaginar que nada mudou.
Porém, os custos podem ter
aumentado, os fornecedores podem ter reajustado preços e o aproveitamento dos
créditos tributários pode ter sido alterado.
Nesse cenário, a empresa continua
vendendo o mesmo valor, mas pode estar lucrando menos.
É por isso que indicadores como margem bruta e margem
líquida ganham ainda mais importância.
Margem bruta
Lucro bruto ÷ Receita líquida × 100
Margem líquida
Lucro líquido ÷ Receita líquida × 100
Esses indicadores permitem identificar se a empresa está,
por exemplo, vendendo mais e lucrando menos.
Comparar o antes e o depois será
fundamental
Durante a transição da Reforma
Tributária, uma boa prática será comparar os resultados de diferentes períodos.
Por exemplo:
2025 – cenário anterior
2026 – período de adaptação e testes
2027 em diante – avanço do novo sistema
A comparação pode mostrar alterações em:
Esse acompanhamento facilita a
identificação dos reais impactos da Reforma Tributária sobre o negócio.
DRE também ajuda na formação do preço
de venda
A precificação será outro ponto
que exige atenção.
Não basta simplesmente aplicar
uma alíquota sobre o preço do produto.
A empresa precisa conhecer toda a
estrutura envolvida:
Preço de venda → custos →
despesas → tributos → margem → resultado
Se o empresário não conhece sua
margem atual, será muito mais difícil determinar se o preço continuará adequado
depois das mudanças.
A DRE, aliada aos relatórios gerenciais, ajuda a responder:
Créditos de IBS e CBS também precisam
ser acompanhados
O novo sistema tributário utiliza
uma lógica de créditos de IBS e CBS.
Por isso, será importante
acompanhar corretamente as operações de entrada e saída da empresa.
Mas existe um ponto importante:
A DRE não substitui o controle fiscal.
Ela deve ser analisada em conjunto com:
O objetivo é relacionar:
tributação + créditos + custos + receita + margem +
resultado.
O fornecedor também pode impactar o
resultado
Durante a Reforma Tributária,
escolher fornecedores pode exigir uma análise ainda mais completa.
Nem sempre o menor preço de
compra significa o melhor negócio.
A empresa também deve considerar:
A pergunta deixa de ser apenas:
“Qual fornecedor vende mais barato?”
E passa a ser:
“Qual fornecedor gera o melhor custo efetivo para minha
empresa?”
Essa diferença pode aparecer diretamente na margem e no
resultado apresentado pela DRE.
E onde entra o capital de giro?
Além do lucro, as empresas também precisam observar a
capacidade de financiar a própria operação.
É aí que entra o capital de giro.
Capital de giro é o recurso necessário para manter o negócio
funcionando enquanto a empresa:
E existe uma diferença fundamental:
Lucro não significa necessariamente dinheiro disponível
no caixa.
Uma empresa pode ter lucro e mesmo assim faltar dinheiro
Imagine uma empresa que venda R$ 300 mil por mês.
Sua DRE demonstra um lucro de:
R$ 30 mil
A operação parece saudável.
Mas considere que:
Nesse caso, mesmo apresentando
lucro, a empresa pode enfrentar falta de dinheiro no caixa.
Por isso:
DRE mostra o resultado.
Fluxo de caixa mostra o dinheiro disponível.
Capital de giro mostra quanto a empresa precisa para
manter a operação funcionando.
A Reforma Tributária pode alterar a
necessidade de capital de giro
Com a implantação do IBS e da
CBS, será necessário acompanhar não apenas quanto de imposto existe, mas também
quando esse valor impacta financeiramente a empresa.
Alterações em:
podem aumentar ou reduzir a necessidade de capital de giro.
Por isso, durante a Reforma Tributária, a análise ideal deve
integrar:
DRE + Fluxo de Caixa + Capital de Giro + Controle
Tributário
O estoque também prende dinheiro
dentro da empresa
Empresas comerciais devem ter
atenção especial ao estoque.
Imagine uma empresa com:
R$ 200 mil em mercadorias
armazenadas.
Esse valor representa dinheiro
aplicado em produtos que ainda precisam ser vendidos.
Quanto maior o estoque parado,
maior tende a ser o volume de recursos imobilizados.
Por isso, é importante acompanhar:
Um produto pode ter uma boa margem, mas permanecer meses
parado no estoque e consumir capital de giro.
Prazo de clientes e fornecedores
também importa
Considere uma empresa que:
paga o fornecedor em 30 dias e recebe o cliente em
60 dias.
Existe um intervalo de
aproximadamente 30 dias que precisa ser financiado pela própria empresa.
Quanto maior esse intervalo,
maior tende a ser a necessidade de capital de giro.
É importante acompanhar o ciclo:
Compra → Estoque → Venda → Recebimento
Quanto mais longo esse ciclo, maior pode ser a necessidade
financeira da empresa.
Um exemplo prático
Veja uma comparação simplificada:
|
Indicador |
Antes |
Depois |
|
Receita líquida |
R$ 300.000 |
R$ 300.000 |
|
Custos |
R$ 180.000 |
R$ 195.000 |
|
Lucro bruto |
R$ 120.000 |
R$ 105.000 |
|
Despesas |
R$ 80.000 |
R$ 82.000 |
|
Resultado |
R$ 40.000 |
R$ 23.000 |
Mesmo com a receita mantendo o
mesmo valor, o resultado caiu de R$ 40 mil para R$ 23 mil.
Isso significa que a empresa passou a gerar menos recursos
para financiar:
Esse tipo de cenário mostra por que a DRE deve ser
acompanhada de forma periódica.
A DRE gerencial mensal pode ajudar a
antecipar problemas
Esperar apenas o fechamento anual
pode ser tarde demais para identificar uma queda de rentabilidade.
Durante a Reforma Tributária,
acompanhar uma DRE gerencial mensal pode ajudar a visualizar rapidamente
alterações importantes.
Entre os principais indicadores
estão:
Quanto mais cedo um desvio é
identificado, maior é a possibilidade de corrigir preços, reduzir custos ou
renegociar condições.
Simular cenários também será
importante
A empresa também pode utilizar
uma DRE projetada para testar os possíveis efeitos das mudanças.
Cenário atual
Receita líquida: R$ 300.000
Custos: R$ 180.000
Lucro bruto: R$ 120.000
Despesas: R$ 80.000
Resultado: R$ 40.000
Cenário projetado
Receita líquida: R$ 300.000
Custos: R$ 190.000
Lucro bruto: R$ 110.000
Despesas: R$ 82.000
Resultado: R$ 28.000
Nesse exemplo, a receita continua igual, mas a rentabilidade
diminui.
A partir dessa informação, a empresa pode avaliar
antecipadamente:
DRE, fluxo de caixa e capital de giro
não são a mesma coisa
Apesar de estarem relacionados, cada um responde a uma
pergunta diferente.
DRE
A empresa está dando lucro ou prejuízo?
Fluxo de caixa
Quanto dinheiro está entrando e saindo?
Capital de giro
Quanto a empresa precisa para manter a operação
funcionando?
Controle tributário
Quais são os débitos e créditos fiscais da empresa?
Na Reforma Tributária, analisar essas informações em
conjunto pode trazer uma visão muito mais completa da saúde do negócio.
Sistema, contabilidade e gestão
precisam trabalhar juntos
A Reforma Tributária não envolve apenas a área fiscal.
Ela pode impactar toda a operação:
Cadastro de produtos → Compras → Documentos fiscais →
Estoque → Vendas → Tributação → Financeiro → Contabilidade → Resultado
Um cadastro incorreto pode gerar reflexos em:
tributação → crédito → custo → preço → margem → resultado
Por isso, ter informações
corretas e integradas no sistema de gestão será cada vez mais importante.
A Reforma Tributária exige olhar além
do imposto
A principal pergunta do empresário não deve ser apenas:
“Quanto vou pagar de IBS e CBS?”
Também será necessário perguntar:
“Quanto vai sobrar para minha empresa?”
“Minha margem continua saudável?”
“Meu preço está correto?”
“Tenho capital de giro suficiente?”
“Meu estoque está consumindo muito dinheiro?”
“Minha empresa está gerando caixa suficiente para
crescer?”
A resposta exige uma visão integrada entre:
DRE + Fluxo de Caixa + Capital de Giro + Estoque + Gestão
Fiscal
A Reforma Tributária muda a forma
de tributação, mas os impactos podem atingir diretamente a rentabilidade e a
saúde financeira da empresa.
A empresa pode ter faturamento
e não ter lucro. Pode ter lucro e não ter caixa. E pode crescer sem possuir
capital de giro suficiente para sustentar esse crescimento.
Por isso, acompanhar o resultado
da empresa será tão importante quanto acompanhar os novos tributos.
Fontes
Receita Federal – Reforma Tributária do Consumo
https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas-e-atividades/reforma-tributaria-do-consumo/entenda
Lei Complementar nº 214/2025 – IBS, CBS e Imposto
Seletivo
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp214.htm
Lei nº 6.404/1976 – Demonstração do Resultado do
Exercício
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6404compilada.htm
Conselho Federal de Contabilidade – NBC TG 51
https://cfc.org.br/noticias/nbc-tg-51-e-publicada-no-diario-oficial-da-uniao/
